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revista literária

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Ano 1, Número 1. Maio 2019

Inéditos

A calma permanece

(variação sobre o fim do mundo)

Paulo Vicente Cruz

A rua está calma. Uma qualidade estranha para se atribuir a um lugar. Talvez porque seja um atributo não do espaço, mas dos elementos e seres que o ocupam. Veem-se os cachorros e seus donos no passeio matinal, as conversas triviais de esquina, zeladores de prédios ocupados na varredura de calçadas, a gente saindo das casas para os afazeres do dia.

 

Helicópteros e aves desavisadas compõem o céu do bairro desde às 5 da manhã. Há estrondos de morteiros, barulho de rajadas de fuzis e sinais de fumaça vindo de longe. A calma não tem relação necessária com o som. O ritmo nem lento nem apressado em que corre a vida dita o nível de normalidade. Portanto, tudo tem a ver não apenas com os seres e os elementos no espaço; mas também com a velocidade.

 

A ordem segue pacata e semicordial nesse perímetro residencial e urbanizado. A fumaça vem de longe, os estrondos de morteiros vêm de longe, o barulho de rajadas de fuzis vem de longe, os helicópteros vão para longe. Essa rua próxima segue em paz. A calma permanece. Não há maior violência.

Paulo Vicente Cruz é jornalista carioca. Tem textos literários publicados em revistas digitais como Subversa, Gueto e Plástico Bolha. Participou da coletânea de contos Cadernos Negros – Volume 40.

Garrincha

Ronald Lincoln

Rala coco é como chamamos os campos de futebol cobertos de areia ou terra batida em vez de grama. Quase sempre, são cheios de buracos e, por causa da dureza do piso, a bola corre muito mais rápido. Um tombo ali é certeza de um machucado bem feio e doloroso. Mas só pisa em grama fofa, tapete, quem suou na areia, nos dizia Professor.

 

Professor era o nosso técnico e todos os dias nos fazia treinar como profissionais. Às segundas fazia preparação física, às terças e quintas, treino tático e às quartas e sextas, jogávamos no campão. Professor era um homem sério, havia ensinado futebol há gerações e era muito respeitado no morro. Nem tanto por revelar craques, mas sua escolinha de futebol tirava os meninos da rua e isso era o mais importante para os pais. Ali no campinho, a molecada podia correr livre sem a mãe reclamar que  estavam na rua à toa, que era perigoso, que podia aparecer polícia e nos confundir com bandido e ter tiroteio. 

 

Antes de o professor chegar, nos dividíamos em dois times para brincar de pique polícia e ladrão, esquecíamos do treino e, por um momento, só sabíamos correr desenfreados pelo campo. Sempre havia um mais rápido e mais esperto que escapava de todos. Sempre era o Juninho, esse cara. Ele

era o atacante do time. Era quase impossível capturar o Juninho, uma flecha! Apenas com 12 anos de idade, até os garotos mais velhos o respeitavam. A melhor estratégia para alcançá-lo era juntar o time todo contra ele. Mas quando um desavisado caçava sozinho, Juninho corria para direita, o otário seguia, gingava para esquerda e o otário passava longe. A meninada, que assistia, gritava eufórica: “oléee”.

 

Algum menino sempre ficava de vigia no portão do campo para avisar caso o Professor estivesse chegando pela descida da grande ladeira que ligava o morro ao campo. Mas toda nossa precaução, às vezes, valia de nada. Seu faro de homem severo e disciplinador era mais eficiente. O Professor nos adivinhava no primeiro olhar e começava o interrogatório. “Está suado jogador? Estava correndo? Vai ficar cansado na hora do exercício.” E aí vinha a sentença “Quero que todos deem vinte voltas ao redor do campo, para ver se amanhã vão continuar correndo antes do treino”.Passavam as vinte voltas, mas só parávamos de correr quando o professor ficava de bom humor novamente.

 

Sonhava em ser um jogador de futebol, em correr em um estádio de grama verdinha e arquibancada cheia. Ganhar muito dinheiro para minha mãe e comprar um playstation. Mas para isso acontecer, eu precisaria treinar duro e me dedicar no rala côco do morro.

 

Juninho morava na minha rua. Costumávamos ir juntos ao campo. Um dia, saímos muito cedo pro treino. Estava muito quente e o chão de areia ardia sob nossos pés. Alguns moleques já estavam até esperando. Depois do castigo no dia anterior, ninguém se arriscava a correr pelo campo antes do treino. Juninho e eu sentamos perto da trave para calçar nossas chuteiras, quando surgiu no campo um menino bem magrelo, não era do time, mas lembrava de já tê-lo visto no morro. Descalço e sem camisa pulou o muro e caiu no campo de piso escaldante. O vento soprava quente e fazia redemoinhos de areia e folhas, como num filme de velho oeste. Vimos o moleque correr até o centro do campo, confuso, respirando ofegante. Não trazia revólver na cintura, as mãos estavam vazias. Mas carregava terror nos olhos.

 

Logo atrás,  chegavam os inimigos de duelo, dois policiais vestidos de farda, colete, pistola e botas. Tinham o dobro do tamanho do magrinho, mesmo assim foram armados para uma guerra. Prontos para aplicar a pena capital de um julgamento que não ocorreu senão nas mentes daqueles homens da lei. Lei do cão, talvez.

 

Eu não entendia o que se passava, a razão da perseguição. Mas sabia que não podia correr. Corre quem está devendo, essa é a lei. A lei do cão, com certeza. O melhor era ficar quietinho, na disciplina.

 

Ciente da sentença, o garoto voou para a ponta esquerda, com o policial cheirando seu cangote. E o neguinho gingou para um lado, o soldado acompanhou. Gingou para o outro, o soldado seguiu. O Garrincha disparou pelo meio de campo em direção à ponta direita, fez que iria para linha de fundo, mas só fingiu e voltou. O policial não entendeu o drible e tombou com a arma em uma das mãos, enquanto a outra tentava segurar no ar para não cair. Caiu.

 

O menino despinguelou reto em direção ao portão do campo, para poder subir a ladeira, em fuga, rejeitando a pena que lhe fora imputada por levar de alguém um objeto que não era seu, talvez. O outro policial nem para ajudar o colega, caído no chão. Disparou. A bala passou zunindo ao lado do ouvido. Mas o moleque escapuliu por trás do muro.

 

Os policiais não tiveram coragem de subir a ladeira sozinhos. Lá em cima o time do menino poderia estar completo e aí a guerra seria outra. Saíram do campo batendo areia das fardas sujas, pareciam não ter nos percebido no meio da perseguição. E, de repente, tudo ficou calmo. Não passou muito tempo e o restante da molecada começou a chegar ao campo, falando e gargalhando alto, alheios ao que tinha acontecido ali minutos antes. Juninho, eu e os outros garotos que presenciaram a perseguição permanecemos no mesmo lugar, quietos e congelados de medo, até o Professor por o pé no campo e começar o treino. Naquele dia não brincamos de pique.

Ronald Lincoln – é jornalista e escritor, foi um dos finalistas do Prêmio Malê de Literatura 2018, participa da coletânea O movimento leve (Editora Malê).