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revista literária

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Ano 1, Número 1. Maio 2019

Impressões

 Conceição Evaristo

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Por Eduardo de Assis Duarte

 

 

O ano de 2017 ficará marcado na história da literatura afro-brasileira pela visibilidade midiática alcançada pelos autores negros participantes da Festa Literária de Paraty, em especial Conceição Evaristo. Ao lado de Lima Barreto, autor homenageado e contemplado com reedições de sua obra e com uma nova biografia; e ainda de Edimilson de Almeida Pereira, Ana Maria Gonçalves e Lázaro Ramos, Conceição Evaristo chamou a atenção do público e da crítica para o vigor e a potência da vertente afro da literatura brasileira.

Coincidência ou não, a data marca o centenário de morte da pioneira Maria Firmina dos Reis – autora de Úrsula (1859) e primeira mulher a escrever um romance abolicionista em português. Conceição segue a trilha de Firmina e de outras precursoras e traz para a construção do texto o que ela mesma teoriza como escrevivência – diálogo constante da escrita com a memória e as lições do vivido. Se, nos versos de Poemas da recordação e outros movimentos, ela afirma querer “morder a palavra” para sorver o “tutano do verbo” e “versejar o âmago das coisas”, nos romances e contos não é diferente. Em suas estórias, ela sorve o tutano de uma memória pessoal e coletiva e constrói enredos que impregnam para sempre as memórias dos leitores.

Que o diga Ponciá Vicêncio, do romance homônimo (2003), herdeira dos horrores do cativeiro, a viver a favela como atualização da senzala, e a trazer para o século XXI um passado que não passa e que a emudece perante a violência e a desigualdade; ou Maria Nova, de Becos da memória (2006), menina-mestra da resistência frente à voracidade capitalista que passa por sobre barracos e vielas, crianças e velhos, feito trator a refazer a paisagem removendo a incômoda gente “diferenciada”. Em ambos os romances emerge o espaço da ocupação e da moradia precária como resultado do processo de modernização excludente, já encenado feito nervo exposto nos diários e na ficção de Carolina Maria de Jesus. E em ambos o texto dialoga com o vasto arquivo humano construído em séculos de escravização e de seu irmão gêmeo, o preconceito de cor. E em ambos ouve-se a fala do Outro, na contracorrente das metanarrativas do país tropical, “abençoado por Deus e bonito por natureza.”

Nos contos de Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), do premiado Olhos d’água (2014) e de Histórias de leves enganos e parecenças (2016), ouvem-se as mesmas “vozes mulheres” a costurar enredos cravados nas falas subalternas ansiosas por ouvidos que deem atenção ao drama que começou lá atrás, nos porões dos tumbeiros. Vozes como a de Maria ou de Ana Davenga, de Olhos d’água, surpreendidas (juntamente com os leitores) pela irrupção da barbárie no cotidiano aparentemente prosaico da metrópole contemporânea. Vozes que remetem a falas ancestrais e que clamam aos “malungos, broders, irmãos” – também eles vítimas, mesmo quando instrumentos da violência – por uma vida diferente, a ser construída na superação. Mulher conectada a “seu tempo” e a “seu país”, para ficarmos com a síntese centenária do irmão de cor e pai de Capitu,

 

Conceição Evaristo trata a ficção como tecelã a unir documento e invenção, lastro histórico e crítica social. Esquecida da triste “árvore do esquecimento”, nos acorda a cada dia para a crueza que nos cerca e quase não percebemos. Tudo isto, sem perder a ternura jamais.

 

 

BH, inverno de 2017.

Nos becos da Memória

 

 

 

Por Aline Arruda

 

Conheci Ponciá Vicêncio antes de conhecer Conceição Evaristo. Foi numa disciplina de literatura na UFMG, ministrada pelo professor Eduardo de Assis Duarte. Meu encanto foi tamanho, que resolvi inseri-lo no meu projeto de mestrado. Isso foi em 2004! Eu nunca tinha ouvido falar de Conceição antes disso. Ponciá e sua família, com suas idas e vindas no “trem negreiro” me acertaram em cheio na alma. A linguagem poética, o lirismo conjugado à violência e o enredo crítico me tiraram do lugar e encontraram meu apreço pela cultura afro-brasileira. Meses depois eu conheci a escritora. Apresentadas pelo meu orientador, antes de levá-la em casa, convidei para uma entrevista informal. Na minha cozinha, conversamos sobre o livro, sobre nossas vidas, nossas semelhanças. Era também um encontro de almas. Teimosa que só, Conceição não me confirmava algumas suspeitas estéticas sobre o livro, ria e me levava para outro lado dos bastidores de sua escrita, de sua escrevivência. Entre um gomo e outro de mexerica, eu me encantava com a doçura e simplicidade da autora que eu havia canonizado em minha mente. Outros encontros vieram... no seminário Mulher e Literatura no Rio de Janeiro, em 2005, ela foi me assistir numa comunicação sobre Ponciá. Emocionada, verteu lágrimas, vertemos. Lá estavam ainda Miriam Alves, Mãe Beata de Iemonjá, escritoras negras num evento de maioria branca, era um passo ainda tímido comparado a uma FLIP como a deste ano, entretanto, era um regozijo para a literatura de escritores e escritoras negras e para nós pesquisadores. Naquela ocasião ainda era necessário apresentar Conceição Evaristo, contar de sua biografia, resumir o livro. Imaginem que hoje há até cerveja feminista em seu nome! Maravilha!

Em 2017, quando visito a Ocupação Conceição Evaristo na Avenida Paulista, gigante insígnia da megalópole São Paulo, outra emoção me invade, uma alegria sem tamanho ao ver reconhecida uma das melhores escritoras contemporâneas brasileiras. Passo pelas fotos e vídeos, inebriada. À medida que leio sua história, leio também a de nossos ancestrais, a de nossas lutas e conquistas diárias em sala de aula, congressos e grupos de pesquisa. As cores da exposição revelam uma boa notícia em meio às desoladoras que nos cercam nesses tempos. Os manuscritos são arquivos de uma escrita que perpetua a de Maria Firmina dos Reis e Auta de Souza, passa por Carolina Maria de Jesus e encontra Mirians, Esmeraldas, Lívias, Lias, Anas, Julianas, Cristianes, e tantas negras literatas que escrevem a mesma história.

Ousam dizer que elas não fazem literatura. Questionam se há de fato “estética” em suas obras, sem lê-las! Ironizam as presenças suas com piadas sobre cotas. Julgam-lhes ser melhor não inserir prefixo, cor ou gênero para suas literaturas. No entanto, elas ocupam a TV, até o apresentador de Big Brother é obrigado a entrevistá-las. Aparecem nos textos acadêmicos, viram tema de disciplinas nas graduações, são ilustradas em quadrinhos, compõem livros e participam de feiras, festivais literários e mostras. No slam poético, levantam as vozes múltiplas. Nos becos da memória, contam sobre as insubmissas mulheres, poetam pelo mundo e provam que vieram para ficar.

Todos os livros:

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