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Ano 1, Número 1. Maio 2019

Fortuna Crítica

Cristiane Sobral 

produzindo novos reflexos na escrita feminina

                                                                                                                                                                                    Por Cristiane Veloso¹

Cristiane Sobral é uma escritora, atriz e professora de teatro. Nasceu no Rio de Janeiro e, atualmente, reside em Brasília. Iniciou sua carreira como escritora em 2000 publicando nos Cadernos Negros onde publica até hoje. Possui dois livros de poemas e dois de contos, sendo o mais famoso deles o livro de poemas “Não vou mais lavar os pratos”, que já está em sua terceira edição. O referido livro traz poemas que tratam de vários assuntos, como maternidade, amor, beleza, cabelo da mulher negra, relações de gênero e empoderamento feminino. É um livro muito rico e completo, assim como toda a obra de Sobral. Os contos também são profundos e trazem à tona, para discussão e reflexão, aspectos reais da vida de negros e negras.

Nestas breves considerações sobre a autora, iremos nos referir apenas a alguns aspectos de sua obra poética.

A relevância da obra poética de Cristiane Sobral está pautada em seu engajamento político e social, em seus textos que mesclam crítica e suavidade e ainda possuem uma linguagem atual, fácil e motivadora. Os textos de Sobral transgridem as representações estereotipadas, privilegiando a beleza, a cultura e a intelectualidade das mulheres negras. Em seus poemas, a autora combate o preconceito e o racismo e propõe uma nova visão sobre a mulher negra brasileira.

O processo do racismo, dentro de uma perspectiva de gênero, “coisificou” a mulher negra e deu-lhe uma inferioridade que justificou, durante muito tempo, (e ainda justifica) os abusos domésticos e de origem sexual. De acordo com bellhooks (1995, p.468) “perpetua uma iconografia de representação da mulher negra que imprime na consciência cultural coletiva a ideia de que ela está neste planeta principalmente para servir aos outros”.

A visão de uma mulher negra, sem estereótipos racistas, vem tentando conquistar seu espaço na Literatura através de escritoras como Cristiane Sobral, que retrata a mulher negra num papel de luta e resistência. Tal novo paradigma de mulher negra seria um indivíduo dotado de desejos, sentimentos, capaz de intervir positivamente na sociedade, construir uma família, uma carreira, enfim, ser o que ela quiser ser.  A construção dessa nova visão da mulher negra é urgente e a poesia é um campo fértil para tal. Para a professora e pesquisadora sobre Literatura afro-brasileira Zilá Bernd “a proposta do eu lírico não se limita à reivindicação de um mero reconhecimento, mas amplifica-se, correspondendo a um ato de reapropriação de um espaço existencial que lhe seja próprio” (1988, p.77). Como ratifica Sobral “Nunca mais aceitarei a sua visão deturpada das coisas que fere e mata. Agora serei a protagonista” (2011, p.87). Através dos textos em que a mulher negra assume seu lugar de fala e de pertencimento, ela poderá ser capaz de recuperar sua história e sua imagem.

Para fomentar essa Literatura transformadora, é essencial que as mulheres negras ocupem o lugar de intelectual, que, segundo bellhooks, “é uma parte necessária da luta pela libertação, fundamental para os esforços de todas as pessoas oprimidas e/ou exploradas, que passariam de objeto a sujeito” (1995, p.466). Para a autora, a reflexão e o posicionamento intelectual de mulheres negras, inspiram outras mulheres negras, e este fato, tira essa mulher de uma posição de inferioridade, obscuridade e abnegação, na qual ela foi colocada pela sociedade racista e machista. Concomitantemente, Sobral afirma “Ao escrever procuro palavras como quem monta um quebra-cabeça, num exercício de imaginação e sensibilidade. Escrever é o meu grito de liberdade”. (2011, p.123)

 

É justamente por isso que a obra poética de Cristiane Sobral é tão significativa, pois busca nitidamente inspirar as mulheres leitoras a se conhecerem (ou se reconhecerem), se aceitarem e se posicionarem diante desse mundo de preconceitos e racismo.

Para que seja possível romper com paradigmas e posturas consolidadas numa sociedade, é preciso muita coragem. Coragem para se posicionar de forma contrária ao esperado, criando uma nova rota, um caminho de fuga, que aqui é a criação de novas possibilidades e novos sujeitos. E é justamente nesta perspectiva, que os poemas de Cristiane Sobral desconstroem uma estética padronizada da Literatura, gerando uma força propulsora para a criação de uma nova Literatura Negra, com estilo próprio, ousado e moderno.

Abordar tais temas, que não se enquadram numa perspectiva tradicionalista e pré-determinada, é ousar e demonstrar clareza de opinião e posicionamento frente à vida. A autenticidade dos escritos de Sobral é o que agrega mais valor à sua obra.

Cristiane Sobral arrisca e faz de suas experiências, uma obra de arte cheia de energia e substância, rica em criatividade e polimento, portanto merece o nosso estudo, nossa atenção, nosso deleite e nossa reverência. “Brinda-se pelas páginas o ato, o ato-escrever, quando por tal atitude se unem ao pensar e ao expor, audácia, radiância, agudeza, entrega” (PUCHEU, 2007, p. 5).

 

BERND, Zilá. Introdução à literatura negra. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

 

HOOKS, Bell. Intelectuais negras. Revista Estudos Feministas. Rio de Janeiro, v.3, nº 2, p. 464 – 478, 1995.

 

SOBRAL, Cristiane. Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção. Brasília: Dulcina Editora, 2011.

 

_______. Não vou mais lavar os pratos. Brasília: Dulcina Editora, 2011.

 

_______. O tapete voador. Rio de Janeiro: Malê, 2016.

 

_______. Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz. Brasília: Ed. Teixeira, 2014.

 

PUCHEU, Alberto. Pelo colorido, para além do cinzento (quase um manifesto). In: Pelo colorido, para além do cinzento (a literatura e seus contornos interventivos). Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007, p.11-26.

[1] Mestre em Estudos Literários e Especialista em Literatura e Cultura Afro-brasileira pela Universidade Federal de Juiz de Fora.