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revista literária

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Ano 1, Número 1. Maio 2019

Entrevista 

Paulina Chiziane
“Literatura como lugar de negociação, de luta pela justiça”

De onde lhe vem a inspiração: leituras, observação, conversa… Ou é algo inconsciente?

Inconsciente não é. Às vezes me vem nas conversas. De tantas palavras, na conversa, há-de haver uma que me prende. Outras vezes, são crianças passando na rua, do que falam há alguma coisa que capto. Outras vezes, ainda, vem duma simples observação. Mas a minha verdadeira inspiração acontece quando estou acordada, ao som duma música, que me leva à imaginação. Eu nunca disse: agora vou escrever sobre isso ou aquilo. As coisas vêm ao meu encontro, nas minhas vivências, e mantenho a sensibilidade sobre as coisas nestas vivências. Depois vem o sonho e o trabalho que acaba em papel.

Algo que salta à vista: você gosta de escrever na primeira pessoa. Quer comentar?

Em muitos livros, como Niketche e Balada de amor ao vento, eu escrevo na primeira pessoa. Eu gosto de trabalhar na primeira porque eu também mergulho na estória. Eu e os meus personagens fazemos parte da mesma corrente.

No contexto moçambicano e não só ainda se confunde o narrador com o autor. Não acha que os leitores podem considerar as experiências dos livros como se fossem suas?

As minhas marcas pessoais estão sempre nos livros. Há pessoas que dizem que escrevo sobre feminismo, o que não é verdade. Eu sou do sexo feminino, eu vejo com olho feminino. Apenas estou a descrever o meu mundo, não estou a seguir uma linha filosófica. Escrevo aquilo que sinto, o que as outras mulheres sentem, resumo isso e coloco no papel. Os meus livros são ricos nisso e fica muito difícil saber quem é o autor e quem é o narrador.

Há quem diga que existe problema entre o curandeirismo e a religião. Partilha dessa visão?

Não há mesmo. Eu diria mais: o curandeirismo, no sentido positivo – note-se que todas as profissões têm o seu lado mau e seu lado bom – trata dos assuntos do corpo, é uma ciência um pouco mais concreta. O padre trata apenas dos assuntos do espírito. O médico apenas da carne Veja-se que o ocidente conseguiu dividir estas áreas. A parte física ficou com os médicos e a espiritual ficou com os padres. Mas em África, as duas partes são tratadas com a mesma entidade. Não há conflito, o que existe é uma barreira colonizadora. Quando o Ocidente chegou a África tentou reprovar tudo para impor a sua visão do mundo. Mas estamos na fase de desconstrução desta barreira filosófica colocada.

Um exemplo que dou, em relação ao curandeirismo, é que quase 70% da população moçambicana busca saúde no curandeiro. No campo, o hospital, às vezes dista a 50 Km. Então tem ali alguém que domina o conhecimento sobre as ervas, portanto, enquanto se demora para se chegar aos 50km, por dificuldades de transporte, as pessoas vão ao curandeiro.

Irreverência é o que caracteriza a escritora moçambicana Paulina Chiziane. Mas não o faz por mal, segredou-nos. É puro amor à liberdade. “Tenho a minha própria expressão e ninguém me deve proibir de seguir este caminho”, reforça. A sua escrita é de compromisso, mesmo sabendo que não será capaz de mudar alguma coisa na sociedade. “Meus escritos não são para mudar nada, são apenas uma contribuição para uma reflexão, diz, nutrida de fé que essa reflexão possa conduzir para uma nova visão. Será o caso de “o canto dos escravos”, seu mais recente livro e pretexto para esta entrevista? A escritora guarda fé nisso. A ver vamos! Mas enquanto os livros não chegam aos leitores, fiquemos com a entrevista.

 

Algumas pessoas a criticam por a sua escrita não se enquadrar nas escolas literárias tradicionais. Tem seguido esse debate?

Devemos deixar uma coisa bem clara: existem diversidades de estéticas. E eu venho de uma cultura, a africana, que tem a sua maneira de fazer as coisas. Aprendi também, nas escolas formais, outras formas de fazer as coisas. Logicamente, eu sou o produto de várias escolas. Não seguir o caminho dos outros não significa não ter estética.

Eu tenho a minha própria expressão e ninguém me deve proibir de seguir este caminho. Se eu quiser seguir aquilo que os outros ditam como o ideal, eu estarei a sufocar-me. A minha expressão, se calhar, não vai ser perfeita. Resumindo: eu tenho alguma coisa para dizer, dentro de mim existe uma mensagem, uma vontade de dialogar com o outro. Eu tenho que ser aquilo que eu sinto. As pessoas devem aceitar a diversidade, pois a vida só é perfeita quando diferentes pessoas se juntam.

Essa irreverência, pelos vistos, estende-se para a escolha dos temas. Cada livro seu destapa assuntos polémicos. Você tem um projecto temático definido ou tudo vem ao acaso?

Eu acho que há acaso nisso. Existe apenas vontade de comunicar sobre diferentes aspectos da vida. Se num dia, eu comunico sobre um assunto, no dia seguinte, sou capaz de comunicar sobre um outro assunto.

É por isso que insiste em dizer que não escritora?

Eu não sou escritora, eu sempre disse isso. Não gosto disso. O ser escritora, no sentido formal, significa buscar um projecto  literário. Para mim, a escrita é um lugar de liberdade. Os temas são tão diversos, tão vastos, tão profundos. Por que eu apenas tenho de sentar a olhar apenas para um tema? Quando me apetece escrever sobre a borboleta, escrevo. Sobre ovo de galinha, idem.

Fora do livro, você já terá abraçado a causa do feminismo?

Sem dúvidas. Para mim, o livro ou a literatura funciona como um lugar de negociação, de luta pela justiça. Eu quero negociar a partir da escrita, ajudar as pessoas com dificuldades de expressar o seu pensamento. Não foi sem razão que na última trilogia, eu entrevistei uma espírita e dois curandeiros, e deixei-os falar na primeira pessoa. Eu simplesmente dei as minhas mãos para que eles pudessem expressar o seu próprio sentimento. E a razão é simples: nós sabemos que o nosso mundo está cheio de tabus. E eu queria quebrar isso. E como o assunto é complexo e que não podia mergulhar no assunto, eu pus as pessoas a falar. Eu apenas fui a máquina operadora.

Acha que isso é da função do escritor?

Eu acredito que essa é uma das funções do escritor ou do autor. Umas vezes falando de si, outras vezes ajudando a desvendar o seu próprio mundo.

Eu encontro estes dois mundos e tento trazer ao livro este debate. E como eu não tenho propriedade para falar de certos assuntos, coloco a pergunta, o conflito e peço que os entendidos dêem o devido esclarecimento.

Você explora as temáticas de magia africana: o curandeirismo e a feitiçaria. Sente-se à vontade para abordar esse assunto complexo?

Todos falam de espíritos e curandeiros. Mas se tu procurares saber, naquelas pessoas que falam, de quem verdadeiramente elas falam, muito poucas saberão. E isso despertou, em mim, muita curiosidade. Por que é que se fala de alguém, lhe dão nomes feios, se procura às escondidas, mas não se sabe exactamente quem é. Eu simplesmente tive a curiosidade de procurar saber com um pouco mais de profundidade.

Sente esse saber estar a ser marginalizado pela ciência?

Vem aí a questão da ciência, do pensamento ocidental. Chama-lhe esse conhecimento de magia, de realismo mágico, porque não conseguem explicar esse conhecimento. Outros ainda, os religiosos, chamam-lhe de diabólico. Mas o que é isso de diabólico, de realismo mágico. Quando eu saio daqui da cidade e vou para a zona rural, vejo um outro povo, que tem outra maneira de ver o mundo, de pensar e acredita nessas pessoas [curandeiros], algumas das quais são provedoras de saúde e bem-estar na comunidade.

As pessoas dão os nomes em função do contexto em que vivem. Na América Latina, isso que estou a dizer chamariam realismo mágico ou magia, sei lá. Mas que fique claro que para meu povo não é nada disso, é realidade.

Você vive numa sociedade patriarcal, que subjuga a mulher. Depois de quase 3 décadas de escrita, como vê a relação entre o homem e a mulher?

Eu acho que no mundo não há razão para um sobrepor-se ao outro. O homem não se pode achar dono de tudo, porque para ele existir é houve antes uma mulher. E esta não pode pensar que foi feita para servir, ela tem a sua parcela. A natureza já criou as condições para que cada um assuma a sua função no mundo. Se a mulher tem inteligência por que não pode aprender? Se a mulher tem voz por que não pode cantar ou expressar os seus sentimentos?

Se é verdade que a mulher é um ser inferior, que deve ser humilhado, o que seria um mundo sem mulheres, só com homens? E há ainda outros contextos em que as pessoas são catalogadas em função da cor da pele. Se Deus me fez negra, só ele sabe porquê. Porquê alguém me pode vir dizer que ele é melhor que eu. Aquele que se julga letrado, que estudou nas academias olha para outro como se nada fosse. Porquê? 

Por dominar o conhecimento…

Que conhecimento? Há uma coisa de que gosto quando vou a certas zonas rurais. Uma vez eu estive na reserva do Gilé. Quando chegámos, a primeira coisa que nos disseram é silenciar os telefones, desligar os flashes das máquinas fotográficas e proibiram-nos urinar em qualquer sítio. Devia-se seguir o guia. Então naquela fronteira, toda a sabedoria adquirida cai porque estamos a entrar num território em que há outro tipo de sabedoria.

Outra coisa que gosto de dizer: veja que um chefe de Estado, todo-poderoso, os militares, os magnatas, todos esses quando no avião recebem ordens e obedecem. Ordem para sentar, ordem para comer, etc.

Com isso quero dizer que existe mundo dos que se julgam letrados, que é bom, que dá benefícios, mas existe o mundo daquele indivíduo não letrado, mas que tem a sabedoria que lhe vai fazer sobreviver.

A ideia de colonização não está só com os brancos ou com os homens. Pode comentar, tomando em consideração, o caso do livro Niketche?

As mulheres que se sobrepõem às outras. Para mim, a questão é seguinte: todos os seres nasceram para a liberdade e cada um nós, no seu quotidiano, tem que lutar para ter essa liberdade. E ter um lugar para existir. Muitas vezes, pelas dinâmicas da vida, há sempre aqueles que se querem sobrepor aos outros. O racismo, o tribalismo, o machismo e outras formas de discriminação são lutas de interesse. O negro tem que lutar para ter o controle sobre si e não permitir que o outro possa invadir o seu espaço. A mulher deve ter consciência da sua liberdade, seu valor para não se deixar subjugar àquela mulher que se julga Dona. Esta é a dinâmica da vida. Nesta coisa de conflitos entre homens e mulheres, o que chamo atenção é a necessidade da mulher sentir a sua força e sentir o seu lugar no equilíbrio do mundo.

E os desequilíbrios também acontecem na relação entre as profissões?

Sim. Os médicos, governadores, académicos, etc. acham que os artistas acham são marginais. Mas o que é um médico sem música? No momento de rebaixamento, aquele som que lhe suaviza a alma, quem o produz? É o artista. Como ele se pode considerar superior àquele que lhe faz a massagem do espírito.

 

Qual é o fim último da sua escrita? Pretende mudar alguma coisa na sociedade?

Meus escritos não são para mudar nada, são apenas uma contribuição para uma reflexão, e esta reflexão pode conduzir para uma nova visão. E quero confessar, com toda a certeza, que Niketche é um livro que criou reflexões. Se criou mudanças, isso não sei.

 

A propósito, este livro está ser adaptado para telenovela no Brasil. Como se sentiu quando soube disso?

A minha surpresa foi boa demais. Primeiro porque o elenco que está trabalhar para a telenovela é do alto nível. Não acreditei que fosse verdade aquilo que eu vi.

 

Recentemente uma delegação de escritores moçambicanos foi homenageada no Festival Literário de Poços de Caldas (Flipoços 2017) que decorreu no Brasil. Que memórias guarda deste festival?

Foi bom, bom demais. É muito bonito um país apresentar-se ao outro através da voz dos seus artistas. Foi um acto sublime, foi o reconhecimento de que nós como povo existimos. Afinal, nós moçambicanos também produzimos valores que são reconhecidos além-fronteiras.

Eu considerei aquele festival um momento muito nobre. Note quando se fala de África, fala-se da fome, das epidemias, da pobreza, etc. Mas nós fomos para o Brasil, levando a alma e a sabedoria do nosso povo.