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revista literária

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Ano 1, Número 1. Maio 2019

ISSN - 2596-3538

Editorial

Combinamos de não morrer – O lançamento da Mahin – Revista Literária.

 

    A frase que dá título a este editorial é um trecho do conto A gente combinamos de não morrer, da escritora Conceição Evaristo, publicado no livro Olhos d’água (Pallas, 2014; “Nosso trato de vida virou às avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer.”  A gente combinamos de morrer foi também o título que a artista potiguar, trans, Jota Mombaça, deu para sua performance apresentada em setembro (2018) no Festival de Teatro de BH.  O título, também retirado do conto de Conceição Evaristo,  comunicava as intenções da artista, que, por ocasião do festival,  afirmou para o Jornal O Tempo “O título da performance expressa esse combinado fundamental que nós negros e pessoas trans temos que fazer.[...] Nos resta fazer um combinado ao avesso, que é o de não morrer, e isso passa por se cuidar, estudar os modos de como a violência se organiza e ser resiliente, sobreviver a ela.”. 

 

    Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer, frase atribuída à Conceição Evaristo e viralizada nas redes em formas de citações, banners e memes, serviu, junto com “Ninguém solta a mão de ninguém”, como código de união, solidariedade e resistência nos últimos meses de 2018, após o resultado das eleições.  A frase não está no conto A gente não combinamos de não morrer, e, embora tenha sido atribuída a Conceição Evaristo, não foi dita pela autora, mas, em certa medida, destaca força da literatura, de permitir que os leitores se apropriem dos textos, ao ponto de transformá-los.

    2018 foi um ano de aprofundamento da crise no mercado editorial, de crises políticas e econômicas, que levaram a uma redução significativa nos investimentos das editoras em produção de novos títulos, assim como, uma redução nas vendas de livros.  Combinamos de morrer é a frase que selecionei para apresentar este número da Mahin – Revista Literária, considerando que, desde que a escritora maranhense, Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917), publicou o romance Úrsula (1859), ou até anos antes, quando Francisco de Paula Brito (1809-1861) fundava a Tipografia Fluminense Brito & C, o combinado tenha sido este: não morrer, e, pela literatura, remontar narrativas, combinar ao avesso, como afirmou Jota Mombaça.  Penetrar no campo literário, deixando um registro da autoria produzida por escritores e escritoras negros.  Lançamentos, reedições, homenagens e eventos literários indicaram que o interesse pela literatura de autoria negra continua crescente, sem dar pistas de regressão, afinal, mesmo que “a morte incendeie a vida, como se estopa fosse”, como o Dorvi, personagem do conto de Conceição Evaristo, nós, escritores, editores, mediadores e leitores da literatura negra, também, combinamos de não morrer.

 

    Neste primeiro número, apresentamos uma matéria sobre Livro do avesso, o pensamento de Edite, romance de Elisa Lucinda e sobre Do Índico e do Atlântico: contos brasileiros e moçambicanos, duas impressões sobre a obra da escritora Conceição Evaristo, uma entrevista realizada pelo escritor moçambicano, Dany Wambire, com a escritora Paulina Chiziane, além de resenhas, textos inéditos, e um guia destacando alguns livros que foram lançados em 2018.

Boa leitura

Vagner Amaro