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Ano 1, Número 1. Maio 2019

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Livro do avesso, o pensamento de Elisa Lucinda

Revista Mahin: Como surgiu a ideia de escrever Livro do avesso, o pensamento de Edite?

Elisa Lucinda: Edite nasceu espontaneamente, eram anotações de um certo avesso. Apontamentos de um cotidiano numa hora em que eu me sentia muito pressionada: escrevia o Fernando Pessoa, meu primeiro romance, e tinha um prazo para entregar a revisão de um outro livro por uma outra  editora. Isso foi criando um tumulto no meu peito e um certo sufocamento. Explico: toda poesia que ameaçava nascer dentro de mim, ia logo para a boca enorme do romance. Tudo que eu pensava poeticamente acabava indo fazer parte de um capítulo, de uma cena do Cavaleiro de Nada. As outras horas eram dedicadas à revisão do outro livro. Então que horas eram minhas? Comecei então a fazer umas anotações de um modo quase escondido de mim. Ninguém podia saber que eu estava escrevendo outra coisa além das encomendas já em curso; nem eu. Então , qualquer pensamento que passasse na minha cabeça e que fosse  simples, livre, solto, eu comecei a anotar. E tudo começou com um sonho que tive. Foi aí que eu vi Edite aparecendo, surgindo. Avistei sua lógica,seu funcionamento.Uma personagem caleidoscópica da qual eu anotei umas 113 observações de sua mandala existencial. Logo percebi também que as vozes que moravam com a Edite precisavam sair de casa. É um livro despretensioso e isso faz dele pra mim, um filho muito legítimo. Brotou .

Revista Mahin: E quando você decidiu que seria um romance?

Elisa Lucinda: A maioria das passagens tiveram seu nascedouro na realidade. Viraram ficção quando se tornaram literatura. Agora eu acredito até no que inventei. Acredito na Edite. Eu não sabia que era romance. A princípio pensei: é um livro de prosa, um certo diário, uma conversa banal de alguém com a própria vida, mas quando Edite se configurou se apresentou  como narradora do começo ao  fim. Não havia dúvidas. O que ficou pronto foi um romance. Esse livro nasceu pronto. Mistério. 

 

Revista Mahin: Entre o romance e a poesia, qual o gênero que você mais se identifica?

Elisa Lucinda: Eu gosto dos dois. Mais o que acontece no romance é uma questão de extensão do campo. A poesia tem mais compromisso com a síntese. É difícil suportar um poema de 120 páginas, mas no romance é perfeitamente comestível, palatável!O romance não tem limite, tem um outro time para a riqueza de detalhes porque, se precisar, o romance usa uma, duas, três páginas para descrever uma cena de amor. Enquanto na poesia sou mais impressionista, tenho menos espaço. a  questão é que o poeta já é, por prática, um experiente narrador. Quando ele vira romancista, se espalha. Mas a poesia é um olhar, um jeito de olhar, um viés. Por isso que minha prosa é sempre vista pelos críticos e pelos fãs como uma prosa poética, o que muito me alegra e me agrada. No entanto, Livro do avesso, o pensamento de Edite, é um livro de preço acessível e acho que é o meu livro mais magro de páginas. Flávia Oliveira, nossa queridíssima jornalista, economista e grande observadora sociológica da história brasileira, disse que é livro pra se ler de uma sentada só. Confio. Tomara que Edite possa abrir o avesso de outras mulheres, e outros homens, e outros seres. 

 

Revista Mahin: E como foi o processo de criação do romance?

Elisa Lucinda: Uma libertação. Fernando era uma delícia. Escrevê-lo em primeira pessoa me fez usar de práticas teatrais e aplicá-las na literatura. investigar para sê-lo.Ser  ator é ser o outro.  Eu escrevia brincando de ser Fernando Pessoa, tentando pensar como ele, o pensamento opiário, um pensamento ébrio, um pensamento homossexual, um pensamento judeu português e acima de tudo um pensamento de um poeta foda. Foi uma tese, uma faculdade, uma viagem longa que  fiz ao país daquela alma. E aquilo tomou muito minha existência , meu espaço interno. Edite era a minha transgressão, minha subversão,  o porão de mim. 

 

 Revista Mahin: O livro apresenta a partir da protagonista uma voz literária feminina muito marcante.  Foi uma escolha intencional?

Elisa Lucinda: É interessante também que essas vozes possam sair de dentro de mim através da Edite porque elas marcam uma grande transformação no feminino desde quando eu era criança. No meu inconsciente moram e eu testemunhei tias, vizinhos, dias riquíssimos dos subúrbios daquele tempo onde a histeria era mais alegórica ainda porque as mulheres eram muito castradas e oprimidas em suas potencialidades. O livro é um brinde à libertação feminina, de uma certa forma. Edite não é uma ativista, oficialmente falando. Seu discurso não é panfletário, ela não está num comício, todas as suas observações políticas são ditas de um ponto de vista muito íntimo e pessoal. Não tem grandes extensões teóricas. Não fica em silêncio Edite é singela na sua compreensão do mundo e esse pra mim é o seu charme.

Trecho de Livro do avesso, o pensamento de Edite

Ontem não aguentei. Olhei pra ele e falei: Você me desperdiça, não me aproveita. Enche de ausência nosso amor. Não quero mais, pra mim é pouco. Então eu vou ficar com você mas vou dormir com outros homens também, tá? Você não dá conta sozinho do serviço. Paciência. Tô na pista! Você está me ouvindo?


Claro que ele não está me ouvindo, não sou doida de falar isso na cara dele. Se eu falar ele vai embora. Não quero que ele vá embora assim, por ele. Só quando eu mandar. Ai, por que pensei isso? Devia ter uma caixinha no canto da gente só para pensamento feio, aí nem eu ia saber deles. Ainda bem que a Voz não está me escutando. Onde será que ela fica quando ela não está aqui? Eu hein, vou sair, estou com medo de mim.

Título: Livro do avesso, o pensamento de Edite. 
Autor: Elisa Lucinda 
Editora: Malê 
Assunto: Romance brasileiro; cultura brasileira 
Formato: 14x21 
Páginas: 156 
ISBN 978-85-92736-35-4